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Vísceras do Brasil

Pela nação evangélica. Pelos fundamentos do cristianismo. Pelos maçons do Brasil. Pelos militares de 64. Pelos princípios que ensinei à minha filha. Pelo meu neto Gabriel. Pela minha esposa Mariana. Em homenagem ao meu pai Roberto Jefferson. Por Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma. Para nenhum governo se levantar contra o povo de Israel.

A sessão que autorizou anteontem na Câmara o prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pareceu a encenação de uma farsa burlesco-religiosa que escancarou as vísceras do Parlamento e expôs a mediocridade humana dos nossos deputados.

Eduardo Cunha, estrela do gangsterismo político, no papel principal de profeta da moralidade. Obreiros da chantagem estrebuchando bênçãos e misericórdias ao microfone. Vendilhões do templo condenando cinicamente a corrupção. E os Judas Iscariotes da democracia distribuindo seus beijos àqueles que aplaudem o engodo.

Muitas barbaridades foram cometidas em nome da moral religiosa. A consagração, como ocorreu na Câmara, da trindade Deus, pátria e família justificou tragédias, como a que estreou em 1º de abril de 1964 e durou penosos 25 anos. Ontem e hoje, não foram poucas as referências aos militares e os delírios sobre a ameaça comunista.

Se um Congresso corrupto e comandado por um gangster pode se aproveitar da fragilidade de um governo para derrubar, através da chantagem, uma presidente democraticamente eleita e que não cometeu crime de responsabilidade, o mesmo pode acontecer em qualquer casa legislativa do país. É o parlamentarismo de extorsão.

O mais desesperador é assistir ao êxtase coletivo de milhões de pessoas diante da vitória de Cunha e de gente que exalta torturadores da ditadura militar em pleno Congresso Nacional. O que há para comemorar? O futuro governo de Temer e Cunha? Exatamente o PMDB, que faliu o Rio de Janeiro e não paga aposentados, é o símbolo do atraso.

O analfabetismo político é socialmente produzido e alimentado pela própria elite política em seu benefício. A despolitização é uma estratégia de poder. Ela é a essência da crise.

O impeachment foi apenas o aperitivo de um banquete desolador que está sendo preparado nos porões do Legislativo. Muito mais do que a absolvição dos pecados do capo-mor, que dificilmente será cassado, temos pela frente uma agenda política tenebrosa, que inclui o projeto escola sem partido, a flexibilização das leis trabalhistas e o ataque aos direitos das minorias.

Cunha bem sabia do que estava falando quando, ao anunciar seu voto favorável ao processo de impeachment, pediu que “Deus tenha misericórdia desta nação”.

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