É urgente: o impeachment precisa de cronistas. Não dos idiotas da objetividade, cuja maior cegueira é só enxergar a bola. Mas daqueles com o charme épico da velha guarda, capazes de vasculhar o espírito de um povo diante de um pênalti desperdiçado.

Mestre da crônica, Nelson Rodrigues escreveu que muitas vezes a falta de caráter decide uma partida. “Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Pois o Brasil tem jogado a política como se escreve o futebol e se faz a literatura. E tome sete a um.

A batalha do impeachment antevê aqueles derradeiros minutos em que as estratégias se transformam em desespero. Mais do que analisar jogadas e esquemas táticos, precisamos observar o caráter das performances.


A advogada Janaina Paschoal, cujo lance mais polêmico foi exortar durante discurso na Universidade de São Paulo a legião de Deus a cortar as asas da cobra petista, mascote do escrete adversário, esteve na comissão do Senado que analisa o processo de impeachment na noite do dia 28.

Janaína encorajou seu time a avançar para tentar matar logo o jogo: os senadores não deveriam levar em conta apenas as pedaladas fiscais, como prevê o processo aprovado pela Câmara, mas incluir por conta própria outras acusações. Ou seja, Janaina quer dar as suas pedaladas.

A firula deixou espaços para o contra-ataque. Ao pedir que o Senado não se restrinja ao objeto da investigação, a advogada mostra a fragilidade de um pedido de impedimento baseado somente em questões orçamentárias.

Janaina disse que as pedaladas são o maior crime que já viu. É catimba. Ela poderia ter olhado com a mesma indignação para o lado, onde sentava o seu ponta esquerda, o relator do impeachment, Antonio Anastasia (PSDB), que pedalou entre 2011 e 2014, quando governou Minas Gerais.

De Geraldo Alckmin a Luiz Fernando Pezão, quem nunca pedalou que atire a primeira pedra ou corra para o abraço com Eduardo Cunha, como fez Michel Temer.

Quando assumiu interinamente a Presidência, entre novembro de 2014 e julho de 2015, Temer assinou sete decretos de suplementação orçamentária que somam R$ 10,8 bilhões.

Sou contra o impeachment. Mas se erguerem o cartão vermelho para Dilma, Temer também tem que ser expulso de campo, e novas eleições devem ser convocadas. Não importam as cores das nossas bandeiras, iniciemos uma nova partida e deixemos aos torcedores a glória de definir o resultado nas urnas. Caso contrário, é golpe.

A máfia do apito de Cunha não pode vencer a democracia. No futebol e na política, o pior cego é aquele que só enxerga o resultado.

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