A Cinelândia, um dos principais palcos da democracia brasileira, viveu noite épica no último dia 11. Duas mil pessoas lotaram a praça para ouvir o geógrafo britânico David Harvey, autor do excelente livro “Cidades Rebeldes: do Direito à Cidade à Revolução Urbana”.

Com Harvey na rua, foi encerrado o curso “Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança”, organizado pelo movimento Se a Cidade Fosse Nossa. Entre muitas coisas, ele falou sobre a necessidade de nos apropriarmos do espaço urbano, principalmente nas periferias, por meio de arte e cultura.

Ele me fez lembrar o Fonseca, bairro pobre da periferia de Niterói, onde nasci e vivi. O Fonseca era do tamanho do meu mundo. Nossos horizontes, de bairro e menino pobres, se misturavam. Meus pais eram inspetores de colégio e não tinham muito estudo. Nunca fomos ao teatro, à biblioteca ou ao cinema, assim como quase todos nossos vizinhos. Não havia equipamentos culturais. Meu universo era o imediato.

Tudo começou a mudar quando completei 17 anos e um amigo me levou a um bar em Icaraí, bairro rico de Niterói, onde um grupo estava tocando Clube da Esquina.

Encantado, perguntei que música era aquela. Música popular brasileira, respondeu meu amigo. Emendei: “Mas de que Brasil?”. Naquele momento, o Clube da Esquina me apresentava uma encruzilhada, caminhos alternativos aos becos em que a maior parte da juventude das favelas e periferias está presa.

Descobri Milton Nascimento, Beto Guedes, Drummond, Mário Quintana. Passei a frequentar o cinema da Universidade Federal Fluminense. Mas o mais importante dessa transformação foi que eu decidi transformar o meu bairro.

Criamos o Movimento Cultural Comunitário, minha primeira experiência na militância política. Lutávamos por mais equipamentos culturais no Fonseca.

Apesar das dificuldades, hoje percebo que, sem nos darmos conta, já resistíamos ao esmagamento à nossa maneira. Coloríamos o bairro todos os dias quando brincávamos de cafifa, garrafão, bola de gude e organizávamos festas juninas.

A militância mostrou a urgência de lutar por políticas públicas que potencializassem essas forças criadoras. Há muitas cidades dentro das cidades. São espaços, muitas vezes invisíveis, que se reinventam por meio da arte. Cabe ao governo reconhecer e incentivar essas manifestações.

Por isso é alarmante que, no Rio, somente 27% dos equipamentos culturais estejam localizados em bairros populares. São só 137 espaços para cerca de 5 milhões de pessoas.

A arte liberta. Eu me reinventei narrando o Fonseca. E sei que, quando todos puderem narrar os becos e encruzilhadas de suas comunidades, as flores romperão o asfalto.

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