Neste 1º de março, festejo a cidade dos invisíveis, dos esquecidos e dos poetas anônimos que compõem versos tortuosos como becos e vielas da resistência cotidiana.

Festejo o aniversário do Rio de Janeiro. Mas não desse Rio marcado com código de barras, “made in” especulação e espetáculo. Aplaudo os penetras, aqueles que não costumam entrar em cena, que não sobem no palco e não subirão no pódio da cidade olímpica. Que não são convidados, não frequentam cinemas, teatros e cartões postais.

Saudações ao povo da Vila Autódromo e à sua luta por moradia. Viva a rapaziada que observa a imensa vitrine e não reconhece seu reflexo nela.

A imagem brilha, mas não cega o Rio que renasce todos os dias em pontos de ônibus, trens lotados, filas dos hospitais, favelas, bailes.

Celebro essa cidade que, 451 anos após sua fundação, tenta cruzar oceanos imaginários que ainda separam colonizadores e colonizados. Mais do que nunca, navegar é preciso.

Quando os portugueses chegaram aqui, diziam que os índios não conheciam as letras L, R e F. Logo, não tinham lei, rei e fé. Demarcaram assim os limites da civilização: se o interlocutor é considerado bárbaro, o diálogo é impossível. A única linguagem é a da violência e submissão.

Esse processo não foi superado, mas transformado. As atuais fronteiras da Nova Pindorama delimitam territórios muito próximos, distantes só alguns quilômetros, mas separados por um oceano Atlântico do ponto de vista da garantia da dignidade humana.

A segregação leva ao desconhecimento e alimenta o medo. O medo dá origem ao mal, legitima a violência contra aqueles considerados inferiores, selvagens das aldeias-periferias do século 21.

A cidade se enche de grades, alarmes, muros simbólicos para tentar se proteger de si mesma. E assim revivemos a linguagem da violência dos tempos de Estácio de Sá.

Precisamos ampliar o diálogo, criar formas de participação das pessoas em decisões de interesse coletivo. A democracia deve sair dos gabinetes e ganhar ruas e redes. Assim a cidade negada será a cidade esperança. Há muitas cidades dentro do Rio, purgatórios do caos e da beleza. Por isso ele resiste. Não falo da beleza clichê da cidade maravilhosa, mas da maravilha mutante cuja essência não sucumbe.

Festejo essa cidade sangue quente cantada por Fernanda Abreu, Fausto Fawcett, camelôs, garis, motoristas, cobradores, motoboys. Por todos trabalhadores e trabalhadoras que a constroem com suas alegrias e dores.

Cidades e pessoas não se separam. Quando debatemos a cidade que desejamos, reafirmamos quem seremos. Celebremos, então, esta cidade que é nossa!

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