Folha de São Paulo

A manhã de Natal foi como uma Sexta-feira da Paixão para um grupo de seis amigos em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

Eles voltavam para casa de uma festa na favela Santo Amaro quando foram abordados por um grupo de policiais da UPP Coroa, Fallet e Fogueteiro. Na rua Prefeito João Felipe, sofreram sua via crucis.

Os jovens foram agredidos, tiveram seus corpos queimados com isqueiro e faca quente, foram obrigados a fazer sexo oral uns nos outros e ainda tiveram seus pertences roubados. No dia em que se comemora o nascimento de Cristo, eles sentiram a crueldade do nosso espírito romano.

Certa vez uma jornalista me fez uma pergunta que pode parecer tola à primeira vista, mas não é: o que leva um policial a praticar uma atrocidade dessa?

Quem achou o questionamento pueril provavelmente responderia que o crime é fruto da maldade dos policiais que o cometeram. Como se ele pudesse ser explicado somente do ponto de vista do indivíduo.

Não é bem assim. Tratar o problema como uma manifestação individual nos leva a ver o crime como um evento isolado, mero desvio, o que nos impede de entender a complexidade da violência do Estado.

Os governos inclusive jogam politicamente com essa crença para se eximir da responsabilidade sobre os delitos praticados por agentes da política de segurança conduzida por eles.

Ao mencionar o nosso espírito romano, faço uma provocação sobre o papel que a cultura do justiçamento exerce no incentivo e legitimação de práticas violentas.

Toleramos, quando não aplaudimos, ilegalidades cometidas por policiais desde que elas se dirijam àqueles que nos inspiram medo ou menosprezo, seja por os considerarmos inferiores, bárbaros ou simplesmente por serem criaturas muito distantes da nossa realidade, quase incompreensíveis.

Ao não reconhecer em alguém a dignidade e humanidade que atribuo a mim e aos meus, ao não tratá-lo como um igual em direitos, rompo eticamente com ele e o grupo a que pertence.

Essa ruptura não é arbitrária. Ela é produzida pelas injustiças e contradições da sociedade que construímos. Não por acaso, as vítimas de Santa Teresa, como tantas outras, são moradoras de favela.

Volto à pergunta: por que policiais torturaram os rapazes? Ora, por que não o fariam? Se damos aos agentes de segurança o poder de decidir sobre a vida e a morte em nossos tribunais de rua, por que eles não exerceriam o arbítrio sobre os corpos? Se dispõem da vida, usufruirão da carne.

E a carne mais barata do mercado é a carne negra, pobre, exposta nas periferias ao sadismo público. Como dizia o filósofo Michel Foucault, o controle social dos indivíduos é exercido principalmente sobre seus corpos.

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