Quem me chamou? Mangueira! Chamou para sambar. E com a menina de Oyá, Bethânia no embalo do xirê, começou a cantoria. E o Alabê de Jerusalém na Viradouro seguia. No couro do tambor, pediu axé a Oxum e Xangô. E o malandro batuqueiro, lá do Morro do Salgueiro, desceu para acompanhar. Laroiê, mojubá!

A bambas e sambistas peço licença, com reverência e cortesia, para trazer a esta coluna a mistura da poesia que desfilou e emocionou a Sapucaí, terreiro onde batem os tambores e corações do Carnaval do Rio de Janeiro.

Mangueira, Viradouro, Portela, Império, Tuiuti, Salgueiro. Há tempos os sambas-enredo não põem os pés no chão com tanta força e elegância, levantando poeira, cantando de forma tão lírica suas raízes, alma do espetáculo.

Há quem queira domar o indomável. Reduzir o Carnaval, seja ele carioca, pernambucano, paulista ou baiano, a um negócio, flash mob milionário de enredos patrocinados, desfiles de marcas pelas avenidas e produto a ser vendido no exterior. Sabem de nada. A cultura popular ginga e escapole. Só não viu quem não olhou para a Sapucaí.

A Mangueira homenageou Iansã e sua filha Maria, bordadeira de canções. A Viradouro desfilou um belíssimo samba-enredo sincrético que misturou santos, orixás e pediu tolerância. Imagina, Cristo, Alabê de Jerusalém, voltou para falar de amor e igualdade. A Império Serrano saudou o eterno sambista Silas de Oliveira. E a Salgueiro encenou a ópera dos malandros.

Diante de tanta riqueza, nem parece que há poucos anos ouvimos enredos duvidosos que cantaram as maravilhas do iogurte, do Rock in Rio e de uma revista que retrata a plástica vida das celebridades. Todos patrocinados por grandes empresas que veem a Sapucaí como alegoria de shopping center, vitrine de samba-produto.

Mas o shopping é o não-lugar, um só em qualquer canto do mundo. E a Sapucaí é terreiro, aldeia, apoteose da identidade de um povo, resistência que dança ao som que vem das ruas e morros da cidade.

O Carnaval é fundamental para movimentar recursos importantes para os municípios, mas não pode ser reduzido a uma engrenagem financeira. Muito mais do que isso, ele é expressão da nossa memória coletiva e afetiva, de nossos conflitos e dilemas. Os encontros nos blocos, nas quadras das escolas, nas feijoadas e desfiles são momentos de transmissão e celebração de saberes populares e história. É esse espírito que sustenta a festa, inclusive do ponto de vista econômico, não o contrário.

Fico com um verso da Estação Primeira, pelo qual reverencio todas as escolas e foliões. Neste Carnaval que cantou a si mesmo, brincamos de viver a emoção. Que nós continuemos assim. Saravá!

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