Folha de São Paulo

O medo é o principal ingrediente do caldo de desumanidade que alimenta a intolerância e produz tragédias que varrem com igual brutalidade campos de refugiados sírios e favelas cariocas.

Não trato dos temores ancestrais, heranças neandertais de instintos de sobrevivência. Refiro-me ao medo político, inculcado, fabricado pelas contradições sociais. Falo do pavor que, como escreveu Drummond, “nos dissimula e nos berça”, nos mantém “dançando o baile do medo”.

A produção do medo é essencial para definir os limites entre civilização e barbárie. É a partir dele que distinguimos cidadãos e aqueles que sequer serão tratados como humanos. Sobre os bárbaros intoleráveis, a violência é tolerada.

A origem da palavra bárbaro remonta à Grécia antiga. Ela surge da onomatopeia usada pelos gregos para se referir à sonoridade da língua daqueles que não compartilhavam a cultura helenística. Seria o que chamamos “blá-blá-blá” incompreensível. Mas que é, na verdade, o que recusamos compreender.

 

Na Roma antiga, os bárbaros representavam o perigo à civilização. O medo justificava o ódio e legitimava a violência a quem não estava à altura dos valores romanos. É um processo histórico permanente. Para continuar à beira do Mediterrâneo, recorro à crise imigratória na Europa. É o pavor semeado contra aqueles que não reconhecemos como iguais, principalmente árabes e africanos, que coisifica tragédias e transforma em números as milhares de vidas engolidas por essa fronteira oceânica.

 

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman escreveu que o medo é como uma neblina desumanizante. As pessoas não conhecem de fato o que temem, mas sabem de quais territórios ele vem, qual a sua religião, a cor de sua pele. A fotografia do garoto sírio Aylan Kurdi, 3, morto é um dos raros momentos em que esta neblina é dissipada. Ela personificou o invisível ao expor a dimensão humana do absurdo.

O Brasil tem seus mediterrâneos. Nossos imigrantes são aqueles meninos da periferia cujos rolezinhos não são tolerados na civilização do consumo. Aqueles adolescentes da favela impedidos de ir às praias cariocas pela polícia. Os bárbaros que amarramos em postes e linchamos. Os intoleráveis que desejamos eliminar.

Também temos nossos Aylans. Christian Andrade, 13, era um deles. Ele morreu ao ser baleado numa operação policial na favela de Manguinhos. O garoto estava ajudando uma idosa a se proteger quando foi atingido.

Christian também era inocente, mas o dito mundo civilizado não lamentou a tragédia. Ela permaneceu encoberta pela neblina que nos provoca não uma ilusão de ótica, e sim uma ilusão de ética. No baile do medo, dançamos ao ritmo da barbárie

A origem da palavra bárbaro remonta à Grécia antiga. Ela surge da onomatopeia usada pelos gregos para se referir à sonoridade da língua daqueles que não compartilhavam a cultura helenística. Seria o que chamamos “blá-blá-blá” incompreensível. Mas que é, na verdade, o que recusamos compreender.

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