Folha de São Paulo

Por volta das 23h do domingo (31), quando a poeira de confete e serpentina começava a baixar nos bailes de máscaras da cidade do Rio, um jovem de camisa do Flamengo sobre a pele preta coberta por sangue e hematomas chega a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) na zona norte acompanhado da namorada.

Impressionada com as marcas da violência que cobriam todo o corpo do rapaz, a dentista responsável pelo atendimento, devido aos ferimentos sofridos no rosto e na cabeça, pergunta o que aconteceu.

“Foi uma briga no Bloco da Preta”, responde assustado.

“Mentira! Não foi briga nada, doutora! Uma mulher no bloco começou a gritar dizendo que o celular dela tinha sido roubado. Olhou para trás, viu meu namorado e disse que ele era o culpado. Todo mundo foi pra cima dele. Jogaram no chão, chutaram a cabeça, a barriga, deram socos…”

O jovem baixa a cabeça e chora. A dentista, então, questiona se ele foi a uma delegacia para prestar queixa.

“Não posso ir, doutora…”

“Por quê?”

“Porque eu sou negro.”

A resposta é cortante como o ressoar das chibatas que continuam a estalar nos pelourinhos. Novos pelourinhos erguidos como monumentos ao cinismo, nostalgia de um passado que permanece, e se faz presente de forma cruel em meio ao alegre transe carnavalesco. O garoto não quis procurar a polícia, pois já se sentia, e de fato fora, condenado.

O Carnaval de rua é palco das multidões, da irreverência, da explosão das forças sobre-humanas do delírio, resistência criadora e recriadora, mas é também espaço de contradições e conflitos.

Basta reparar na cor da pele de quem bebe a cerveja e de quem cata as latinhas. De quem veste os abadás e de quem segura as cordas do bloco. De quem acusa e de quem é apontado como ladrão do celular. De quem é sumariamente condenado pela multidão.

Durante o desfile do Bloco da Preta, onde todas as atrações eram pretas, de Gilberto Gil a Nego do Borel, um preto foi o suspeito número um. Bastou um grito, um dedo em riste para ele ser levado ao pelourinho. Por uma triste ironia, o rapaz foi com a namorada ao centro do Rio, onde o bloco desfila, para comemorar seu aniversário de 19 anos. Recebeu de presente toda a carga do racismo histórico que cultivamos com esmero sádico.

Como diz o historiador Luiz Antonio Simas, a festa é uma fresta, alegoria de resistência. Por isso, mais do que andar com fé, precisamos resgatar os sambas que denunciaram o preconceito, como o “Kizomba”, da Unidos de Vila Isabel, em 1988: “Vem a Lua de Luanda para iluminar a rua. Nossa cede é nossa sede. E que o apartheid se destrua”.

E que caiam nesse baile todas as máscaras que não sejam carnavalescas.

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