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A Banalidade do Mal

Folha de São Paulo

Muitas mãos invisíveis seguravam a arma do PM que assassinou Eduardo Felipe Santos, 17, cuja morte foi filmada por moradores do Morro da Providência, centro do Rio. O policial foi o autor do disparo, mas não puxou o gatilho sozinho.

Muitas mãos invisíveis estão sujas de sangue. De apresentadores de TV que pregam o moralismo do extermínio a autoridades que a cada assassinato cometido pelo Estado repetem: não vamos recuar. De políticos que se alimentam eleitoralmente de cadáveres aos cidadãos de bem que aplaudem justiçamentos.

Após o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, condenado pela execução de milhões de judeus, a filósofa Hannah Arendt criou o conceito de banalidade do mal. Ela se impressionou ao ver que os autores de crimes tão bárbaros eram burocratas, homens comuns, banais.

Essa banalidade é aqui representada pela execução de Eduardo. Após assassiná-lo, o PM pôs uma arma na mão da vítima e a disparou para simular o confronto. O ato burocrático: decidir tirar friamente a vida do jovem supostamente envolvido com o tráfico.

A legitimação social da violência e a doutrina militar da guerra, essência da PM, fazem com que o mal seja banalizado e rotineiramente praticado por uma “massa burocrática de homens perfeitamente normais”, como escreveu Hannah. Ele atinge os próprios policiais, que matam e morrem muito. Em 2015, 56 foram assassinados no Rio.

Há exemplos históricos dessa burocratização. Em 1995, o ex-governador do Rio Marcello Alencar transformou o extermínio em política de Estado ao conceder bonificações por atos de bravura a policiais. A gratificação faroeste dobrou a quantidade de “execuções”.

O relatório da Anistia Internacional “Você Matou meu Filho!” é contundente. Entre 2010 e 2013, 1.275 pessoas foram mortas pela polícia na capital carioca. Destas, 99,5% eram homens, 79% eram negros e 75% tinham entre 15 e 29 anos de idade.

Este também é o perfil da maioria dos policiais mortos na insensatez de uma guerra que atinge os mais pobres.

Infelizmente, suas tragédias têm servido apenas para reafirmar a violência e atacar a defesa dos direitos humanos, não para sensibilizar a opinião pública sobre a violação dos direitos dos trabalhadores da segurança.

Boa parte das famílias de policiais é atendida pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, que presido, como no caso do soldado Bruno Pereira, torturado e morto por traficantes.

A sociedade que trata a violência como ritual de redenção coletiva, ao dar à polícia o direito de decidir sobre a vida e a morte, está condenada à barbárie. Ela faz da sua história um cortejo fúnebre.

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