Se 1968 é o ano que não terminou, como escreveu Zuenir Ventura, o que dizer de 2013? Mesmo nestes tempos sombrios, em que a carcaça política de Eduardo Cunha cheira à metáfora do atual modelo de democracia, os ventos de junho de 2013 continuam a soprar, nos empurram para frente e desanuviam os horizontes.

O ano de 2015 não é só o das crises, da rapinagem da oligarquia política e empresarial, da transformação do ódio em ativo eleitoral e da violência em argumento.

Ele é também o ano em que estudantes paulistas ocuparam suas escolas para peitar o autoritarismo do governo do Estado. Em 2015, milhares de pessoas protestaram pelo fim dos manicômios e as mulheres saíram às ruas para exigir a igualdade de direitos.

Os ventos de 2013 sopraram nos festivais “Amanhecer Contra a Redução”, grande ato cultural realizado por jovens de todo o país contra a redução da maioridade penal, e “Todo Mundo tem Direitos”, que na noite de 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, reuniu 50 mil pessoas no parque Madureira, no Rio.

Mais do que filhotes de junho de 2013, esses movimentos e sentimentos são anunciações: o novo sempre vem e eu já escuto os seus sinais.

Ele será construído sobre os destroços de um modelo moribundo de democracia em que o diálogo e a participação das pessoas nas decisões de interesse público são impossibilitados pelo próprio sistema político. O futuro não está nas negociações de gabinete, no conluio entre quem tem a grana e o poder, no parlamentarismo de extorsão e no patrocínio eleitoral. O novo virá das ruas, tomadas por pessoas e complexidades.

Digo isso porque a rua é o espaço da política. E a política é o terreno da divergência. O avanço de um modelo de democracia soberano depende da nossa capacidade de conviver com as diferenças e dialogar. A luta política é pedagógica, as armas são nossas ideias.

Por isso, é saudável que, em 2015, esquerda e direita, progressistas e conservadores, com suas enormes diferenças, tenham ido às ruas.

A política não pode ser a anulação do outro, a impossibilidade da divergência e da disputa democrática. Por isso, agressões como a sofrida por Chico Buarque não podem ser aceitas, não importa nossa orientação política.

É algo difícil nessa era de extremos, mas não há outro caminho. Precisamos criar novas formas de participação, espaços de discussão para além das instituições, sem tutela. Só alcançaremos isso por meio do debate, ouvindo e falando. A democracia é um exercício.

Você pode não sentir nem ver. Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que nesse fim de 2015, junho de 2013 continua cantando: precisamos todos rejuvenescer.

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