Noite épica na Cinelândia: Freixo e Harvey no coração da cidade rebelde

Publicado em 12 de março de 2016 por equipe

galera


Numa cidade rebelde como o Rio de Janeiro, a rua é o espaço da esperança. Esperança num futuro que na noite da última sexta-feira (11) foi anunciado pelas mais de três mil pessoas que ocuparam a Cinelândia para participar da aula pública do geógrafo britânico David Harvey, autor do livro “Cidades rebeldes: do direitos à cidade à revolução urbana”, e do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). O encontro encerrou o quarto e último dia do curso “Cidades rebeldes e espaços de esperança”, organizado pelo Movimento Se a Cidade Fosse Nossa.

A linda história da Cinelândia, palco e símbolo das lutas pela democracia no país, ficou ainda mais bela depois da noite de ontem, quando o passado e o futuro se encontraram no desejo de construir o novo. Reunidos em frente à Câmara Municipal, Harvey, Freixo, estudantes secundaristas, universitários, educadores, sem tetos, artistas, garis, midiativistas, moradores das favelas e periferias do Rio, militantes do movimento LGBT e tantos outros mostraram que é possível criar uma cidade mais justa, solidária e feliz.

O evento seria realizado no Cine Odeon, devido ao risco de chuva. Como não choveu e o cinema não comportou a grande quantidade de pessoas que desejavam participar – a fila começou a se formar duas horas antes do início do bate-papo, previsto para as 19h – o encontro aconteceu no histórico espaço de esperança no Centro do Rio.

freixo falando

“Essa praça tem história. Tem muita história. E é exatamente o que estamos fazendo aqui hoje. Numa noite de sexta-feira, temos o David Harvey falando sobre capitalismo e mais valia na Cinelândia, alguma coisa está acontecendo, alguma coisa vai acontecer”, disse Freixo em referência à apresentação do geógrafo, que o precedeu.

O tema da aula era “Rio: cidade rebelde”. Para Freixo, essa cidade rebelde, oficina de resistências cotidianas, é o contraponto essencial ao que ele chamou de cidade-negócio, onde o interesse público é anulado e submetido às ambições de empresas aliadas a governos e autoridades públicas. Essas relações espúrias começam nos conchavos eleitorais, através dos milionários financiamentos de campanhas, cuja consequência é o sequestro da soberania e o leilão das políticas públicas.

“Hoje o Rio é um laboratório da cidade-negócio. É um dos maiores símbolos mundiais desse modelo.Temos uma cidade colonizada e colonizadora, que é o oposto da cidade voltada para as pessoas, a cidade de direitos”, argumentou.

A democratização do espaço urbano passa pela possibilidade real de as pessoas participarem das decisões de interesse público, como protagonistas de políticas públicas, e poderem usufruir, criar e recriar a cidade em que vivem, superando a segregação, seja ela racial, territorial, de classe, gênero ou identidade sexual.

“A democracia não pode existir na cidade-negócio, porque ela é, em essência, autoritária. Não pode haver diálogo, debates, divergência, as decisões são verticais, de cima para baixo. A democracia, a participação social atrapalham os negócios. Não há uma única cidade, há várias cidades. Cidades invisíveis, de becos e vielas. Essa diversidade precisa ser narrada por seus protagonistas, por aqueles que a vivem. Os bairros precisam ter memória, e as pessoas precisam ter voz”, afirmou.

povo

Os megaeventos são o cerne da cidade transformada em ativo financeiro, marcada com código de barras e exposta nas gôndolas dos mercados mundiais. Os negócios são importantes para a cidade e precisam ser garantidos, mas eles não podem ser o sentido da gestão pública nem servir para subjugar os interesses coletivos. Essa submissão é o espírito da cidade-commodity.

Os megaeventos, como Olimpíadas e Copa do Mundo, são usados como instrumentos para segregar a cidade, anulando territórios e pessoas que não interessam à lógica do capital. Nas áreas do espetáculo, que servem aos investimentos privados, a soberania é pervertida e transformada na cidadania do aplauso. Às pessoas não cabe participar, criticar, opinar, mas somente aplaudir.

As áreas que não interessam aos negócios e ao capital especulativo não são apenas esquecidas e invisibilizadas. Sobre elas incide o discurso do medo, que legitima o controle social e a violência. Há um corte entre os que são considerados cidadãos e os demais, os ninguéns, os descartáveis que sobraram por não interessarem ao mercado. São os negros, pobres, moradores das favelas e periferias, submetidos ao massacre cotidiano.

“Há uma massa que sobrou de uma sociedade de mercado, que não pode sequer ser aproveitada pelos negócios. Por isso nem é considerada como exército de reserva. Numa situação como essa, o discurso hegemônico estabelece um fronteira tênue entre os sobrantes e os ditos delinquentes. Quem é quem? Assim o genocídio é justificado”, denunciou.

Freixo explicou que a cidade da esperança deve ser narrada pela diversidade das pessoas e territórios que a compõem, com meios pelos quais o poder possa ser exercido de forma soberana pela população. A cidade da esperança tem diferentes vozes e respeita todas a suas manifestações.

Harvey nas ruas

falandoO geógrafo britânico David Harvey começou sua apresentação agradecendo por ter recebido da bancada do PSOL na Câmara Municipal o título de Cidadão Carioca. “Tive a honra de receber o título de Cidadão Carioca. Sou carioca e me sinto muito bem. Estou orgulhoso por dividir esse espaço com Marcelo Freixo, por quem tenho imenso respeito”, disse.

E, como novo cidadão, Harvey criticou a forma como os megaeventos, principalmente as Olimpíadas, são organizados na cidade. “O Rio é uma grande cidade. E é uma cidade melhor sem os megaeventos do que com eles. Barcelona (sede das olimpíadas em 1992), se tornou uma commodity. O custo de uma cidade-commodity é muito elevado. Os preços sobem e as pessoas comuns não podem viver no Centro de Barcelona. Elas não se beneficiam de nenhuma forma”, declarou.

O geógrafo explicou que o capitalismo se transformou desde o seu surgimento e deixou de ser um sistema baseado em riscos. Agora, a resposta ao risco é o lucro garantido pelas instituições estatais. “Se você assume riscos, pode fracassar. Nos primórdios do capitalismo foi assim. Hoje temos uma variedade especial de capitalismo que não quer assumir riscos, que quer o seu retorno garantido pelo estado. Quando as crises estouram, os bancos centrais entram para salvar bancos privados e os mercados de ações”, lamentou.

Harvey citou a crise na Grécia como exemplo. Para apoiar financeiramente o país, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia, com a Alemanha à frente, impuseram como condição a realização de cortes de 20% a 30% nas aposentadorias e diminuição de recursos para a educação e saúde. Com 50% das pessoas com menos de 35 anos desempregadas, o governo aceitou.

“O dinheiro não foi para a Grécia, mas para bancos franceses e alemães. Angela Merkel (primeira-ministra alemã) dizia que o problema eram os gregos preguiçosos. Ela nunca mencionou que quem está sendo salvo são os bancos alemães e franceses, não os gregos. Isso tem acontecido nos últimos anos”, contou.

freixo e harvey costas

Alternativas

Segundo o geógrafo, a resposta para as crises não pode ser mais e mais capitalismo, com corte de direitos e arrocho salarial. Ele defendeu o desenvolvimento de novas formas de organização do trabalho e uma revolução no sistema político com base na mobilização popular.

“A solução não é abandonar o processo político, mas reconstruir o sistema. Precisamos de uma revolução política. Nos dizem que a única solução para as nossas dificuldades é mais capitalismo. A verdadeira resposta é nada de capitalismo. Na esquerda, a base tem que ser popular e estar no centro do processo político.”

Ao discorrer sobre a exploração do trabalho, Harvey falou sobre a Teoria da Mais-valia, que é a expropriação pelo capitalista de parte do valor do trabalho realizado pelo operário, base do lucro do sistema. Ele defendeu a criação de formas de trabalho que incentivem a solidariedade e a formação de vínculos sociais, em oposição à alienação e individualismo.

“O mais significativo é a forma como o capitalismo quebra essa solidariedade, o senso de confiança e os vínculos sociais. Ao fazer isso, ele quebra sindicatos e organizações sociais baseadas na solidariedade. O pior é que o sistema foi muito bem sucedido nessa empreitada. Precisamos de formas de trabalho social que façamos uns para os outros, através de sistemas de solidariedade, pelos quais possamos construir confiança, que é a fundação das mudanças que precisamos”, avaliou.

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